domingo, 6 de setembro de 2015

O bullying mata

Boa noite, queridos leitores! Espero que estejam prontos para mais um conto... Muahahahaha


Eu odiava acordar todas as manhãs. Queria que parasse. Queria nunca mais ter de acordar de novo.




                - Grace! – ouvi minha mãe gritar. – Grace, acorde! Vai se atrasar de novo!
                Ela entrou no meu quarto deixando a luz do corredor bater em meus olhos abertos. Eu olhava para o teto. O olhar triste. Ela sabia. Sentia... mas eu não podia faltar para sempre. O Colegial era diferente, os alunos agiam diferente... mas a escola era a mesma. Os colegas de classe, os mesmos.  E o modo como me tratavam... nunca mudou.
                Levantei-me contrariada, imaginando o quão merda seria mais um dia. Minha mãe me olhava com um olhar de pena e desculpas. Eu não podia mudar de escola agora. Era a mais perto de casa e o preço acessível. Mudar pra outra mais longe daria problemas e meus pais não queriam que eu estudasse em um colégio público. De alguma forma, eu achava que não faria diferença.
                Fui ao banheiro e olhei meu reflexo no espelho grande de lá. Parecia que o espelho gritava na minha cara o motivo da minha vida ser tão ruim. E parecia tirar sarro de mim ao mesmo tempo. Apesar de tudo, não tenho vergonha do meu corpo, ou de quem sou. Eu me orgulho de mim mesma... mas não gosto dos outros.
                Meu corpo é enorme. Eu sou realmente muito gorda pra uma garota de quinze anos. Quase não tenho pescoço, minhas bochechas engolem meu rosto. Meus olhos são grandes demais para uma garota gorda, e são de cores diferentes. Um é castanho claro e o outro é preto como o breu. Meu cabelo é comprido e enrolado, como um ninho de passarinho, de cor loira escura. Tento sorrir para o meu reflexo e meus dentes tortos e com aparelhos me fazem fechar a boca rapidamente. Minha barriga cai sobre minhas pernas e meus peitos são enormes. Nem quero mencionar meus braços e coxas. Mesmo assim, não sou desengonçada e gosto de me vestir bem.
                Lavo o rosto e em seguida passo um creme para espinhas, que nunca parece adiantar, já que meu rosto é cheio delas. Minhas costas e braços têm algumas também. Eu sou a perfeita imagem de uma garota feia que quer ser bonita.
                Visto o uniforme da escola, escovo os cabelos e os deixo o mais bonitos que consigo. Passo base para esconder as espinhas do rosto por cima do creme e começo minha preparação psicológica do dia. Minha mãe me dá um beijo na bochecha, me deseja um bom dia e me manda embora. É claro que ela sabe que não existem dias bons na minha vida.
                Toda vez que chego na escola é sempre igual. Os meninos me olham com nojo e riem. As meninas riem e falam alto. Me cumprimentam me chamando de tudo quanto é nome estranho, como apelidos. “Eae baleia!”, “Fala, Hurley!”, “O porco que você comeu de manhã cedo tava bom?”,  “Seus pais estão te engordando pro natal?”.
                Tudo bem. Eu não ligo. Apenas ignoro a todos e vou para a aula, esperar pelas peças.
                Na minha carteira havia a foto de um porco chafurdando na lama. Uma das garotas da minha sala chega por trás de mim de fininho e diz:
                - Nossa! Que horror. Como você deixa os outros tirarem fotos de você tomando banho, hein Grace?
                Olho para ela nos olhos, nitidamente desanimada. Bruna é o nome dela. É bem menos que eu, batendo a baixo dos meus ombros. Tem um corpo bonito, de porte atlético, rosto perfeito e livre de espinhas ou qualquer sinal de adolescência. Os cabelos dela são enrolados como os meus, mas mais bem tratados e brilhosos. E seus olhos... são de um azul da cor do céu. Ou odeio os olhos da Bruna.
                - Estou falando com você, cara de porco. Ou o ar é rarefeito ai em cima e minha voz não alcança?
                Ela sorriu e cruzou os braços olhando para mim, esperando uma resposta. Algumas das “capangas” dela se juntaram à sua volta para assistir. Os garotos ficaram de longe olhando e se divertindo, mas prontos para ajuda-las se elas precisassem. Ajudar a ELAS! Não a mim.
                - Não, Bruna. Eu consigo te ouvir. Só não acho que valha a pena te responder.
                Ela me lançou um olhar de nojo e pô a língua para fora em uma reação exagerada e teatral.
                - Eca! Não pronuncie meu nome! Que nojo.
                E se afastaram aos risinhos, me deixando sozinha com minha mesa e a foto do porco.


                O recreio era o pior horário de todos. Eu vivia de “dieta” e tentava comer o menos possível, mas eu tinha problemas de tiroide, por isso engordava tanto. Peguei meu sanduíche de peito de peru e comecei a comer. Às vezes alguém me perguntava se eu comia porco, e como eu aguentava ser canibal e comer meus parentes. Às vezes jogavam comida em mim e perguntavam se eu não queria comer mais. Uma vez uma garota fugiu de mim correndo, dizendo que um gigante queria devorá-la e apontando para mim. Cada dia era uma novidade. Eu tinha que admitir, ao menos eles eram criativos.
                Acho que minha única qualidade era ser inteligente. Minhas notas eram impecáveis e eu sabia que muitos alunos me odiavam por isso. Mas e daí? Foda-se não é?
                É. Não era divertido quando roubavam a minha prova e diziam que eu colara, ou que mandara outro fazer por mim. Afinal, um porco não possuía inteligência. Os olhares de nojo, repulsa e ódio estavam por toda parte. Eu não aguentava mais isso, apesar de fingir ignorar... mas eu não iria chorar. Eu nunca chorara. Nenhuma vez sequer. Eu anotava toda noite, em um caderninho que eu mantinha escondido dentro do meu colchão: O que fizeram para mim, e quem fez. E antes de dormir, eu lia tudo de novo.


*****

                Ainda era cedo. A aula acabara e eu resolvi não voltar pra casa. Não naquele dia. Não quando eu finalmente surtei.
                Tudo que eu precisava naquele dia estava na minha bolsa. Não precisava voltar para casa. Mas foi um dia difícil, pois testei minha paciência. Eu sabia onde cada um deles morava. E hoje era dia de visita-los. Queria me despedir de cada um dos meus carrascos pessoalmente e olhando em seus olhos. Era o fim, e eu achei que eles mereciam uma despedida decente. Eu também sou um ser humano e também tenho os meus limites... infelizmente eles foram ultrapassados.


                Cheguei à casa de Bruna por volta das duas da tarde. Era uma casa grande e bonita, bem segura e de dar inveja. Às vezes eu achava que ela também me odiava por estudar na mesma escola que ela. Toquei o interfone e esperei. Depois de alguns minutos ela atendeu.
                - Bruna? Sou eu, Grace.
                O silêncio foi aterrorizante para mim. Por um segundo acreditei que ela desligaria, mas eu não podia ir embora sem me despedir, então esperei. Ouvi o riso dela do outro lado, e então ela me respondeu rindo.
                - Grace? O que está fazendo aqui?
                - Eu queria falar com você. Queria me despedir.
                - Se despedir? – ela ria mais alto. – Resolveu se matar finalmente?
                - Algo assim. Posso ao menos falar com você um minuto? Você nunca mais vai me ver depois de hoje mesmo.
                Ela ponderou por alguns instantes.
                - Por favor, não fale pra ninguém. Não quero que ninguém saiba ainda. É o único pedido que te faço.
                Senti um frio terrível no estomago. Não queria que ninguém me impedisse. Queria que fosse limpo. Apenas eu e ela. Uma despedida limpa, sem interrupções. E eu tinha que me despedir de outros ainda. Ela deu um último riso e abriu o portão sem dizer mais nada.
Eu entrei.
Bruna me recebeu à porta e fez sinal para que eu entrasse. Ótimo. Não queria dizer adeus lá fora. Ela me conduziu até a sala e ficamos de frente uma para a outra. Bruna parecia séria e preocupada.
- Vai mesmo se matar? – me perguntou sem rodeios.
Eu baixei os olhos para o chão e disse em um sussurro.
- Eu não aguento mais.
- A culpa é nossa?
Ainda sem olhar para ela. – Eu não sei de quem é a culpa. Mas achei que deveria dizer um adeus apropriado. Principalmente àqueles que me fizeram tão mal por tanto tempo.
Bruna ficou visivelmente desconfortável. Olhava para qualquer lugar, menos pra mim.
- Não escreveu nenhuma carta de despedida, escreveu? Tipo, dizendo nossos nomes e tal?
Levantei somente os olhos para encará-la. Ela ainda não olhava para mim.
- Nada vai levar a vocês. Eu realmente só queria dizer adeus.
Bruna bufou e finalmente me encarou.
- E o que você quer? Um abraço? Um aperto de mão?
- Você me abraçaria?
Ela mordeu os lábios e desviou o olhar. Fiquei admirada em notar que Bruna era realmente muito bonita. Ela olhou para mim com os olhos mareados.
- Você mudaria de ideia se eu pedisse? Quer dizer... eu não quero que você se mate, sabe?
- Não há mais coo mudar de ideia. Não posso voltar atrás.
Ela se aproximou de mim devagar e olhou para cima, para me ver.
- Olha. Eu sei que o que fizemos é ruim, mas... suicídio, Grace? Achei que você era mais forte que isso.
Abri os braços como se fosse abraça-la e esperei. E incrivelmente ela me deu um abraço.
- Não faça isso. Por favor. Me desculpe.
- Não posso.
Eu a soltei e quando ela virou de costas para enxugar as lágrimas, eu a ataquei. Puxei um pedaço pequeno de madeira que trouxera comigo e a acertei na nuca. Bruna caiu esparramada no chão. A cabeça sangrando.
- Não posso parar o que já comecei. E eu não sinto muito por isso.


*****

Quando Bruna acordou, eu a havia amarrado em uma das cadeiras da cozinha. No meio do quarto dela.
- Você tem um quarto muito bonito. Me pergunto pra quantos você já abriu as penas nessa sua cama.
Eu estava sentada na cama dela, segurando uma faca na mão, daquelas dobráveis, e olhava para ela diante de mim. O sangue secara em seus ombros e cabelos. E ela me olhava apavorada. Não a havia amordaçado. Ela fez menção de querer gritar e imediatamente passei a faca em sua bochecha abrindo um corto muito profundo da orelha até a boca.
- Se gritar, a próxima coisa que eu vou cortar é sua língua.
O sangue do corte manchara todo o rosto de Bruna e pingava em suas pernas nuas, já que o short que usava era muito curto. Eu sorri e deixei que meus dentes tortos aparecessem.
- Achou mesmo que eu me mataria sem “me despedir”? Ou melhor. Acredita mesmo que eu vou dar fim na minha vida? – Bruna começou a chorar e as lágrimas se misturaram ao sangue. – Eu já estou morta, querida. Vocês me mataram. TODOS VOCÊS! – gritei na cara dela.
                Bruna tremia e chorava compulsivamente. Notei que ela fizera xixi nas calças. Era minha vez de rir.
                - Xixi nas calças, Bruna? Achei que você era mais forte que isso.
                - Você é louca! Por que está fazendo isso comigo, hein? POR QUÊ?!
                Olhei para ela como se não tivesse entendido a pergunta. Então apontei para o espelho no canto do quarto. O espelho refletia nós duas. Eu, grande e gorda, com os olhos de cores diferentes, o cabelo emaranhado, as espinhas e os dentes tortos. E ela, magra e perfeita, cabelo maravilhoso, dentes perfeitos... tudo manchado de sangue.
- Por que você é linda. Porque você é magra. Porque você tem muito amigos. – Desviei os olhos do espelho e olhei para ela. – E você, Bruna? Por que você me odeia? Por que você fez isso comigo?
Ela se calou e deixou que as lágrimas falassem por ela.
- É porque eu sou gorda? Ou talvez porque eu seja feia? Ah! EU talvez, porque sejamos diferentes! É ISSO! – eu gargalhei. – Nós somos diferentes! Somos opostas! É por isso que você me odeia, não é?! HEIN?
Mais silêncio. E então, enquanto eu andava de um lado para o outro do quarto ela resolveu falar.
- Me desculpe. Por favor. Eu não sabia... por favor.
Eu parei de andar e cheguei bem perto dela.
- Me desculpe. Eu também não sabia. Não sabia que ser diferente era crime.
Enfiei a faca na barriga dela o mais fundo que a lâmina permitiu. Senti o sangue quente escorrer pelas minhas mãos e o bafo quente com fedor de sangue de Bruna no meu rosto.
- Você vai aprender agora. Não se preocupe.
Apertei mais fundo a faca e fiquei olhando Bruna nos olhos enquanto a luz os deixava. Quando ela finalmente morreu, limpei minha faca e a guardei na mochila. Olhei para o meu mais recente trabalho e, incrivelmente, não senti nada. Pena, ódio, medo, nada.
Coloquei a mochila nos ombros, fui ao banheiro e lavei as mãos. Minhas roupas não haviam se sujado, então não as troquei. Mas tinha uma muda de roupas na mochila. Afinal, eu ainda tinha alguns adeus para dar. E Bruna foi só a primeira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário