domingo, 25 de janeiro de 2015

O bicho-papão

Fala pessoas! Nossa. Três domingos seguidos! Tô tão feliz!
E eu achei que o número três era meu número do azar.
E ai? Alguém aqui acredita em bicho papão? Pois meu objetivo de hoje é fazer vocês terem medo dele! Muahahaha.


Ele tá aqui! Tá mesmo aqui! Eu posso ouvir ele chegando. A porta se abrindo, os passos arrastados, a respiração pesada. Não consigo fugir do bicho-papão. Eu vou morre...


Fonte: Yefumm/devianart



                O detetive de polícia, Gabriel Medeiros, andava pelo quarto da vítima, consternado. Era o quarto de um garoto de mais ou menos dez anos. Pelos pôsteres na parede, um fã do Palmeiras. O quarto estava levemente desarrumado, os lençóis emaranhados na cama, a cômoda atulhada com roupas, a mesa do computador coberta de papéis, cadernos e jogos de vídeo game. Era o quarto de um garotinho normal. O que o deixava nervoso era a poça de sangue embaixo da cama.
                Ao entrar no quarto, não se via nada de diferente. Mas sentia-se o cheiro. O cheiro de sangue era muito forte.
                A mãe do garoto fora acordar o filho de manhã para que ele fosse à escola, mas não encontrara o menino. Procurou-o por toda a casa, até ter a ideia de olhar sob a cama e se deparar com o pior.
                Quando os legistas chegaram, ficaram igualmente aturdidos. O corpo da criança estava em pedaços, e muitos outros estavam faltando. Aquele emaranhado de carne sob a cama deixara o cheiro insuportável depois de algumas horas. Então o corpo, ou o que sobrou dele, fora removido, deixando apenas a poça de sangue que impregnava o carpete bege do quarto.
                Medeiros até tentara falar com a mãe da vítima, mas sem sucesso. Ela apenas balbuciava coisas sem sentido e seus olhos encaravam o vazio. Aquela mulher já havia perdido a sanidade.
                O pai do menino, descobrira a polícia, havia ido embora há três anos. Morava em São Paulo, bem longe da pequena cidade do interior de Minas, onde a família de dois membros vivia. Dissera que viria o mais rápido possível para a investigação.
                A criança, João Pedro, tinha poucos amigos, nenhum inimigo, e algumas poucas advertências na escola, mas nada de muito prejudicial. Coisa de criança. Mas essas coisas não ajudavam em nada. Medeiros precisava de um suspeito! De um motivo para tal brutalidade.
                As janelas da casa estavam todas trancadas. As portas igualmente. O muro era baixo, mas não havia sinal de pegadas em nenhuma parte do quintal. Os poucos vizinhos nada viram de estranho. Quem entraria num quarto de uma criança, o cortaria em pedaços de baixo da cama e sairia, levando consigo outras partes do garoto, e não faria sujeira alguma?! O único lugar com sangue na casa inteira era de baixo da cama!
                - Medeiros!
                O detetive se sobressaltou ao ouvir seu nome. Estava sozinho no quarto pensando e não esperava que ninguém fosse interrompê-lo.
                - O que é, caralho?!
                - Calma, senhor. Desculpe. – era um dos novos detetives. Novatos irritavam Medeiros. – encontramos algo que talvez interesse o senhor.
                Os dois detetives andaram até a cozinha, onde outros policiais estavam. O novato pegou algo sobre a mesa e o entregou à Medeiros.
                - Acharam isso. Estava dentro do armário da mãe do menino. Ela não sabe como foi parar lá.
                Medeiros pegou o que o jovem detetive entregava para ele. Um caderninho de espiral, capa mole, amaçado... e com alguns borrifos de sangue. Medeiros prendeu a respiração e abriu o caderno...


*****

                Achei melhor começar a registrar. Minha mãe não acredita em mim, diz que é coisa da minha imaginação, mas eu sei que não é. Isso não é bem um diário. Diários são coisas de menina, mas eu tô com medo. Se alguma coisa acontecer comigo, eu quero que alguém leia.


*****


                A letra era um garrancho só. Medeiros engoliu em seco, disse que ia dar uma olhada mais profunda e saiu da cozinha. Foi até o quintal de trás da casa, sentou-se na cadeira, abriu novamente o caderninho e voltou a ler.


*****


                15 de julho de 2014

                Melhor colocar a data, já que é um registro. Não é um diário! Acho que agora é uma da manhã. Minha mãe me tacaria o chinelo se soubesse que eu tô acordado. Mas eu não consigo dormir. Tem uns barulhos muito estranhos na minha janela. Parece que tão arranhando ela, num sei. Não tenho cachorro. Nenhum cachorro conseguiria pular o muro, mesmo ele sendo meio baixo. Mas eu não quero olhar. Eu tô com muito medo de ir olhar.


                23 de julho de 2014

                Tô ouvindo de novo. Esses arranhões. Eu não vou olhar. Eu não quero. Vou me esconder debaixo do edredom e esperar que parem.


                16 de agosto de 2014

                Juntei coragem e fui ver minha janela do lado de fora. Não tem nada nela. Nem uma única marca de unha. Será que eu tô ficando paranoico? Mas eu ainda escuto, sabe? Os arranhões. Eles nunca param.


                20 de agosto de 2014

                Eu contei tudo pro Paulo. Ele disse que eu só tava querendo assustar ele. Mas eu não aguento mais esses arranhões toda maldita noite na minha janela! Será que eu tô ficando doido? Ou será que foi por causa do que eu fiz?
                Vou pedir desculpas.


                26 de agosto de 2014

                A porta do maleiro abriu sozinha hoje. É um armário de madeira muito velho. Fez um barulho assustador. Eu tô me cagando. Não quero dormir sozinho.


                1 de setembro de 2014

                Juntei coragem e fui pedir desculpas pro Caio. Ele me bateu. Disse que não ia me desculpar, mas foi sem querer. Eu não queria ter *parte rabiscada e ilegível*
                Melhor não escrever isso. Vou pedir desculpas pra ele de novo quando ele tiver mais calmo.


                12 de setembro de 2014

                *os garranchos desse dia estavam bem mais acentuados*
Ai caralho! Ai caralho! Ai caralho! Minha janela tava aberta quando eu acordei. Tinha um pouco de terra no parapeito. A porta do maleiro tava arregaçada também e tinham roupas no chão. Não fui eu que fiz isso. Não fui! Eu tô com muito medo...


13 de setembro de 2014

Implorei pro Caio me perdoar. O Paulo contou pra ele que eu tô ficando louco. Ele riu de mim. Disse que era bem feito. Disse que foi muito melhor do que se ele tivesse ido contar pra minha mãe. Eu já entendi, eu não sou lá um moleque muito comportado, eu faço muita coisa errada sem mamãe saber. Mas quando ele me disse que eu ia pagar muito caro, não esperava que o capiroto ia vim atrás de mim! Porra! Eu quero ir pra longe daqui! Eu quero ir morar com meu pai!


23 de setembro 2014

*as palavras estavam manchadas, como se o garoto estivesse chorando enquanto escrevia. Os erros gramaticais foram mantidos*
Eu não dvia ter feto isso. eu num deva..... medesculpamedesculpa...serião...por favor.... mãe.... eu sintomnitooo. Eunao...num... eu sou muito mal criado. era só um filhotinhoo,mais foi taum engrasado. Hahaha... e osmuleke segurando o caio...elechorou muto,muito mesmo, chorou sim....e agente bateunele depis eu pacei sangue na cara dle...do gatinho dele...foi taum engraçado cara... medesculap.
TEU LUGAR TÁ GUARDADO NO INFERNO!
O Caio que disse.
qualé!
FOI SÓ A PORRA DE UM GATO SEU GORDO FILHO DA PUTA!


5 de outubro de 2014

Eu tô ouvindo uns miados agora. Eles vêm de baixo da minha cama. Droga. Por que eu fui matar aquele gato? Eu só queria tirar um sarro da cara do gordo do Caio. Eu exagerei, eu sei. Era um filhotinho. A avó dele que morreu deu o gato pra ele de presente antes de ir. E eu fui lá e matei o bichano. E ainda passei o sangue do bicho na cara dele. Eu sou um babaca. Eu mereço isso.
Teu lugar tá guardado no inferno. Essas palavras não saem da minha cabeça. Vou pedir perdão pra ele de novo amanhã.


8 de outubro de 2014

O Caio se matou.


13 de outubro de 2014

Ele deixou um bilhete pra mim.
“O bicho-papão come crianças levadas e que não dormem a noite. Você sabia?”
O bicho-papão? Eu riria disso um tempo atrás. Eu bateria no Caio de tão ridículo que foi esse bilhete. Eu feria tudo isso. Antes...
Agora eu já não tenho mais certeza.


20 de outubro de 2014

Os miados começam às 2h da madrugada.
As janelas fazem barulho a noite toda.
Eu amarrei as portas do maleiro. Elas não paravam de abrir.


2 de novembro de 2014

Eu tô em São Paulo, na casa do meu pai. Eu não achei que fosse registrar nada enquanto estivesse aqui, mas... até mesmo aqui ele me seguiu. Nunca pensei que eu faria xixi na cama aos dez anos. Nunca pensei que eu teria medo do bicho-papão de novo.


10 de novembro de 2014

*garranchos quase ilegíveis*
ele tá aqui ele tá olhando pra mim enquanto eu escrevo no pé da minha cama olhando pra mim aquela sombra tá parada lá olhando pra mim ele tem olhosvermelhos e rostos por toda parte ele é todo escuro ele não faz barulho ele é quieto eu to com medo eu to


27 de novembro de 2014

Ele vem toda a noite agora. Fica parado no pé da minha cama. Eu não consigo gritar. Minha mãe não deixa eu dormir com ela por que eu mijei na cama no primeiro dia. Ele ainda arranha a janela. Às vezes ele sai do meu armário. Às vezes de baixo da cama. Eu não consigo mais levantar a noite pra ir no banheiro. Eu tenho medo que ele pegue o meu pé. Eu mijo na cama todo dia.


15 de dezembro de 2014

A mãe do Caio me viu na rua hoje. Tiveram que segurar a velha. Ela queria me bater. Ficou gritando que a culpa era minha do filhinho dela ter ido embora. EU NÃO FIZ NADA! A CULPA NÃO É MINHA SE AQUELE GORDO NÃO SABIA SE DEFENDER DOS OUTROS! GORDO MALDITO! ESPERO QUE ESTEJA TORRANDO AI NO INFERDO DO LADO DO SEU GATO, SEU GORDO!


24 de dezembro de 2014

Tô esperando minha mãe chamar pra ceia de Natal. Enquanto eu fico aqui no quarto, sozinho, já escutei muita coisa. Eu sei que ele tá no armário só esperando eu ir dormir. Mas eu não vou dormir hoje.


2 de janeiro de 2014 2015

Passei os últimos dias na casa do meu pai. Voltei hoje. Ele vai e volta comigo. Não é o meu quarto. Sou eu. Tô só esperando o dia que ele vai vir me pegar.


7 de janeiro de 2015

Ele começou a me tocar. O toque é tão frio. Ele faz cosquinha no meu pé. Às vezes ele me puxa pra baixo. Minha mãe sempre briga comigo quando eu grito. Diz que eu tô doido. Que eu tô deixando ela doente. Ela não sabe pelo que eu tô passando.
Às vezes eu acho que eu mereço isso.


10 de janeiro de 2015

Eu tentei me matar há dois dias. Minha mãe me encontrou antes. Fiquei o dia todo no hospital. Eu não aguento mais. Se for me levar, faz isso logo!


20 de janeiro de 2015

*os garranchos estão piores, há marcas de lágrimas e sangue na página*
Ele tá aqui. Eu ouvi. Ele tenta não fazer barulho, mas eu ouvi. A porta abrindo, os passos arrastados, a respiração pesada. Eu vou morrer.


*****

Medeiros respirou fundo e fechou o caderno. “O bicho-papão”, pensou consigo mesmo. Ridículo. Aquilo devia ter sido plantado. Coisas assim não existem. Ninguém é morto por um bicho de folclore absurdo.
O detetive se levantou, voltou para a cozinha e jogou o caderno sobre a mesa.
- Prenda a mãe como suspeita número um.
- Mas, ela nem consegue falar. – respondeu o detetive mais jovem.
- Então traga um maldito psiquiatra! Aposto meu braço que ela matou o garoto.
E saiu da cozinha. Ao passar pela mãe de João Pedro, o detetive parou e observou. Ela estava murmurando algo.
- Ele levou meu filho. Meu filhinho. Ele levou. Ele não era mal criado. ele era um anjinho, mas ele levou meu filhinho. O bicho-papão...
Mas Medeiros não se deixaria enganar.




Segue: @KaiEscreve

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