segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sanatório Whitehelm

Em plena segunda com cara de domingo durante as férias, segue o conto. ;)







  
                “Eu odeio esse lugar. É muito grande, escuro e sujo aqui. Nunca consigo ficar em paz. As pessoas andam pelos corredores sem rumo, com olhares perdidos, resmungando baixo. Às vezes eu escuto gritos de desespero, assustadores. Outras vezes ouço-os tossindo. Tosses longas, carregadas. O tipo de tosse que você sabe que é capaz de matar. Mas já estão todos mortos afinal. As noites são as mais longas e horríveis. Eles ficam mais perdidos, mais nervosos. Alguns sabem. Sabem que não deviam estar mais aqui, mas estão presos. Os horrores presos entre essas paredes, nesse prédio há muito abandonado no meio dessa floresta.
               
Apesar de tudo, temos companhias interessantes. Algumas pessoas se arriscam vindo a este lugar amaldiçoado. São esses poucos momentos em que me divirto.  Normalmente são apenas grupos de adolescentes idiotas fazendo algum teste de coragem. Pobrezinhos. São poucos os que conseguem partir. Nós gostamos de companhia nova, novos rostos, novos corpos... é triste pensar que só nós sofremos neste lugar, então porque não castigar aqueles que vêm aqui pra se divertir as nossas custas? Neste maldito sanatório? Nos prometeram uma cura, uma vida em paz. Em troca. Ganhei o inferno.
               
Mas não tem problema. Em meio a todo o caos, terror e medo em que “vivo” aqui, ainda existem coisas a se fazer, pessoas novas pra torturar. É divertido vê-los sentindo medo. Medo de nós. Nós que um dia tememos, agora causamos o medo e o horror. Nós que um dia morremos, causamos a morte. Pode considerar uma vingança, uma justiça, o que for. Essa é a regra aqui no Sanatório Whitehelm. A brincadeira que aqueles que sabem que estão mortos fazem.”
               
As palavras acima estavam escritas em um pedaço de papel que encontrei no sanatório durante meu teste de coragem.  Um papel velho, amaçado e manchado com um pouco de sangue. Senti os pelos de minha nuca se arrepiarem. Então, senti uma respiração fria em meu pescoço e sufoquei um grito. Tinha alguém atrás de mim. Então ouvi a última coisa que ouviria enquanto ainda respirava, uma voz suave de uma pequena garotinha: “Agora que sabe que vai morrer e brincar conosco, me diga: Quantas almas você consegue pegar?”. 


Segue: @KaiEscreve

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