sábado, 5 de novembro de 2016

Escrever é difícil, pensar é fácil




As ideias vêm a mil na sua cabeça. Uma atrás da outra, se atropelam, não te dão tempo. Elas vêm com força, vêm desesperadas, vêm animadas.
Você se enche de emoção. Aprecia as palavras. Aprecia as ideias. Pensa: vou escreve-las. Vou registrá-las.
Pega papel e caneta, pega notebook, liga o computador. Qualquer um deles servem.
E então, sem mais nem menos, sem aviso, elas se vão. Se enjoam de você. Sentem que o papel não é o suficiente para elas. São grandes demais, preciosas. Para quê existir fisicamente.
Cheias de si, elas somem. Se vão. Te abandonam como um bobo pensando que, talvez, elas ficariam lindas em uma folha em branco, mas elas discordam de você.
As palavras discordam do escritor. Debocham do artista. O que te faz pensar que você é digno delas? – Elas pensam. E partem.
Mas elas sempre voltam. Como um gato vira-lata que te vê como o entregador de comida. O servidor de um teto para se abrigar da chuva.
As palavras voltam com frequência. Enchem sua mente de emoção. E você as abraça como se fossem as últimas de sua vida. Como um último suspiro.
E quando elas se vão você tenta reproduzi-las, mostra-las que você é digno. Mostrar aos outros o quanto você as vê belas, fortes, significativas.
Elas voltam quando acham que você é digno. Mas nem sempre somos. Nem sempre sou.
Eu amo as palavras e como elas se apresentam. Escreve-las é uma forma de mostrar o quão importante elas são.
Então, querias palavras, abram seus braços para mim. Deixe-me aproveitar do calor e entusiasmo que proporcionam.

Porque pensar, pensar é fácil. Mas escrever parece tão difícil.

sábado, 24 de setembro de 2016

Títulos pra quê?

O título de um dia qualquer pode ir de algo bom a algo ruim. Mas títulos só podem ser dados ao fim. Você dá títulos a dias que começaram? A segundas-feiras? Ao seu ano em janeiro? Títulos são sempre dados ao final.


Título pra quê? 
Nem tudo que acontece na vida precisa de um. Você não acorda em uma manhã de domingo e dá um título praquele dia. Quando a virada de ano começa, você não dá um título pro seu ano à meia noite do dia primeiro de janeiro. Não. 
Títulos são dados ao fim. Fim do dia, da semana, do ano... da história. Quando você morrer, alguém pode por sua vida no papel e dar um título à ela. Você não pode escolher um enquanto está vivo. Imagine: As incríveis aventuras de Kai. Brega. Fraco. Uma aventura. Bobagem.
Uma vida sofrida. Mas e se não for? E se você for a pessoa mais feliz do mundo? 
Me pergunto: título pra quê?
Comecei a escrever esse texto de repente, porque eu quis. Abri o blog e comecei. Não escrevi no word, não fiz rascunhos, não apaguei as partes que considerei idiotas ou desnecessárias. Não corrigi erros ou acrescentei depois o que achava importante. Abri e comecei a escrever.
Por que? - talvez você pergunte.
Por que não? - respondo eu.
Porque sim. Porque eu gosto de escrever. Porque eu sinto falta. Porque eu fiquei longe por tanto tempo que quase pensei que nunca voltaria. Mas eu quero!
EU QUERO MUITO! 
Às vezes a vida chega em você e diz: que belos sonhos você tem! Vamos pegar todos e guardar cuidadosamente nessa caixinha. Agora vamos trancá-la. Você não precisa deles! Sonhos são bobagem! Você precisa trabalhar e ganhar dinheiro! Vamos! Acorde cedo, vá para o trabalho, faça o que tem que fazer. Volte para casa, pense em tudo que você poderia fazer, mas não vai. Durma. Repita no dia seguinte. 
Eu odeio quando ela abre a boca. Parece até que a vida não sabe o que está dizendo. Ela tenta te dar o título antes de você chegar ao fim da história. Não dê ouvidos a ela. Eu não queria escutá-la. 
O que eu quero? Quero tudo! Tudo o que eu sonho. E o que eu sonho? Depende. No momento, eu queria voltar pra cá. Eu gosto tanto daqui. É como um quarto só meu. Um canto só meu. Um lugar onde posso deixar as palavras fluírem, falar o que quiser e não me importar com a droga da vida e o mundo lá fora. É gostoso, confortável. Quase um lar. Eu sinto falta. 
Vou me esforçar pra voltar. Abrir a porta, limpar as teias de aranha, concertar a escrivaninha, arrumar uma cadeira e tomar de volta esse quarto só meu. Compartilhar minhas ideias e meus mundos a quem quiser ouvir. Respirar novamente algo que deixei pra trás porque dei ouvidos a vida e guardei meus sonhos numa maldita caixa e escondi debaixo da cama. 
Eu escrevia fora do quarto só pra mim. Eu não contava ninguém, mas estavam lá. Todos os meus preciosos. O trabalho de limpeza vai ser duro, mas garanto que vai ficar bonito. A Kai vai voltar. Melhor, mais forte e vai fincar ancoras no chão. Talvez eu não consiga manter um por semana, mas eu vou me esforçar todos os dias. Viver o que a vida tentou me fazer guardar. Bater o pé na porta e apagar o título que ela me deu pra uma vida sem graça. Eu não quero ele. Não quero esse título. EI VIDA! ENFIA NO CU!
Afinal...
Título pra quê? 

S.K. Evans

domingo, 6 de setembro de 2015

O bullying mata

Boa noite, queridos leitores! Espero que estejam prontos para mais um conto... Muahahahaha


Eu odiava acordar todas as manhãs. Queria que parasse. Queria nunca mais ter de acordar de novo.




                - Grace! – ouvi minha mãe gritar. – Grace, acorde! Vai se atrasar de novo!
                Ela entrou no meu quarto deixando a luz do corredor bater em meus olhos abertos. Eu olhava para o teto. O olhar triste. Ela sabia. Sentia... mas eu não podia faltar para sempre. O Colegial era diferente, os alunos agiam diferente... mas a escola era a mesma. Os colegas de classe, os mesmos.  E o modo como me tratavam... nunca mudou.
                Levantei-me contrariada, imaginando o quão merda seria mais um dia. Minha mãe me olhava com um olhar de pena e desculpas. Eu não podia mudar de escola agora. Era a mais perto de casa e o preço acessível. Mudar pra outra mais longe daria problemas e meus pais não queriam que eu estudasse em um colégio público. De alguma forma, eu achava que não faria diferença.
                Fui ao banheiro e olhei meu reflexo no espelho grande de lá. Parecia que o espelho gritava na minha cara o motivo da minha vida ser tão ruim. E parecia tirar sarro de mim ao mesmo tempo. Apesar de tudo, não tenho vergonha do meu corpo, ou de quem sou. Eu me orgulho de mim mesma... mas não gosto dos outros.
                Meu corpo é enorme. Eu sou realmente muito gorda pra uma garota de quinze anos. Quase não tenho pescoço, minhas bochechas engolem meu rosto. Meus olhos são grandes demais para uma garota gorda, e são de cores diferentes. Um é castanho claro e o outro é preto como o breu. Meu cabelo é comprido e enrolado, como um ninho de passarinho, de cor loira escura. Tento sorrir para o meu reflexo e meus dentes tortos e com aparelhos me fazem fechar a boca rapidamente. Minha barriga cai sobre minhas pernas e meus peitos são enormes. Nem quero mencionar meus braços e coxas. Mesmo assim, não sou desengonçada e gosto de me vestir bem.
                Lavo o rosto e em seguida passo um creme para espinhas, que nunca parece adiantar, já que meu rosto é cheio delas. Minhas costas e braços têm algumas também. Eu sou a perfeita imagem de uma garota feia que quer ser bonita.
                Visto o uniforme da escola, escovo os cabelos e os deixo o mais bonitos que consigo. Passo base para esconder as espinhas do rosto por cima do creme e começo minha preparação psicológica do dia. Minha mãe me dá um beijo na bochecha, me deseja um bom dia e me manda embora. É claro que ela sabe que não existem dias bons na minha vida.
                Toda vez que chego na escola é sempre igual. Os meninos me olham com nojo e riem. As meninas riem e falam alto. Me cumprimentam me chamando de tudo quanto é nome estranho, como apelidos. “Eae baleia!”, “Fala, Hurley!”, “O porco que você comeu de manhã cedo tava bom?”,  “Seus pais estão te engordando pro natal?”.
                Tudo bem. Eu não ligo. Apenas ignoro a todos e vou para a aula, esperar pelas peças.
                Na minha carteira havia a foto de um porco chafurdando na lama. Uma das garotas da minha sala chega por trás de mim de fininho e diz:
                - Nossa! Que horror. Como você deixa os outros tirarem fotos de você tomando banho, hein Grace?
                Olho para ela nos olhos, nitidamente desanimada. Bruna é o nome dela. É bem menos que eu, batendo a baixo dos meus ombros. Tem um corpo bonito, de porte atlético, rosto perfeito e livre de espinhas ou qualquer sinal de adolescência. Os cabelos dela são enrolados como os meus, mas mais bem tratados e brilhosos. E seus olhos... são de um azul da cor do céu. Ou odeio os olhos da Bruna.
                - Estou falando com você, cara de porco. Ou o ar é rarefeito ai em cima e minha voz não alcança?
                Ela sorriu e cruzou os braços olhando para mim, esperando uma resposta. Algumas das “capangas” dela se juntaram à sua volta para assistir. Os garotos ficaram de longe olhando e se divertindo, mas prontos para ajuda-las se elas precisassem. Ajudar a ELAS! Não a mim.
                - Não, Bruna. Eu consigo te ouvir. Só não acho que valha a pena te responder.
                Ela me lançou um olhar de nojo e pô a língua para fora em uma reação exagerada e teatral.
                - Eca! Não pronuncie meu nome! Que nojo.
                E se afastaram aos risinhos, me deixando sozinha com minha mesa e a foto do porco.


                O recreio era o pior horário de todos. Eu vivia de “dieta” e tentava comer o menos possível, mas eu tinha problemas de tiroide, por isso engordava tanto. Peguei meu sanduíche de peito de peru e comecei a comer. Às vezes alguém me perguntava se eu comia porco, e como eu aguentava ser canibal e comer meus parentes. Às vezes jogavam comida em mim e perguntavam se eu não queria comer mais. Uma vez uma garota fugiu de mim correndo, dizendo que um gigante queria devorá-la e apontando para mim. Cada dia era uma novidade. Eu tinha que admitir, ao menos eles eram criativos.
                Acho que minha única qualidade era ser inteligente. Minhas notas eram impecáveis e eu sabia que muitos alunos me odiavam por isso. Mas e daí? Foda-se não é?
                É. Não era divertido quando roubavam a minha prova e diziam que eu colara, ou que mandara outro fazer por mim. Afinal, um porco não possuía inteligência. Os olhares de nojo, repulsa e ódio estavam por toda parte. Eu não aguentava mais isso, apesar de fingir ignorar... mas eu não iria chorar. Eu nunca chorara. Nenhuma vez sequer. Eu anotava toda noite, em um caderninho que eu mantinha escondido dentro do meu colchão: O que fizeram para mim, e quem fez. E antes de dormir, eu lia tudo de novo.


*****

                Ainda era cedo. A aula acabara e eu resolvi não voltar pra casa. Não naquele dia. Não quando eu finalmente surtei.
                Tudo que eu precisava naquele dia estava na minha bolsa. Não precisava voltar para casa. Mas foi um dia difícil, pois testei minha paciência. Eu sabia onde cada um deles morava. E hoje era dia de visita-los. Queria me despedir de cada um dos meus carrascos pessoalmente e olhando em seus olhos. Era o fim, e eu achei que eles mereciam uma despedida decente. Eu também sou um ser humano e também tenho os meus limites... infelizmente eles foram ultrapassados.


                Cheguei à casa de Bruna por volta das duas da tarde. Era uma casa grande e bonita, bem segura e de dar inveja. Às vezes eu achava que ela também me odiava por estudar na mesma escola que ela. Toquei o interfone e esperei. Depois de alguns minutos ela atendeu.
                - Bruna? Sou eu, Grace.
                O silêncio foi aterrorizante para mim. Por um segundo acreditei que ela desligaria, mas eu não podia ir embora sem me despedir, então esperei. Ouvi o riso dela do outro lado, e então ela me respondeu rindo.
                - Grace? O que está fazendo aqui?
                - Eu queria falar com você. Queria me despedir.
                - Se despedir? – ela ria mais alto. – Resolveu se matar finalmente?
                - Algo assim. Posso ao menos falar com você um minuto? Você nunca mais vai me ver depois de hoje mesmo.
                Ela ponderou por alguns instantes.
                - Por favor, não fale pra ninguém. Não quero que ninguém saiba ainda. É o único pedido que te faço.
                Senti um frio terrível no estomago. Não queria que ninguém me impedisse. Queria que fosse limpo. Apenas eu e ela. Uma despedida limpa, sem interrupções. E eu tinha que me despedir de outros ainda. Ela deu um último riso e abriu o portão sem dizer mais nada.
Eu entrei.
Bruna me recebeu à porta e fez sinal para que eu entrasse. Ótimo. Não queria dizer adeus lá fora. Ela me conduziu até a sala e ficamos de frente uma para a outra. Bruna parecia séria e preocupada.
- Vai mesmo se matar? – me perguntou sem rodeios.
Eu baixei os olhos para o chão e disse em um sussurro.
- Eu não aguento mais.
- A culpa é nossa?
Ainda sem olhar para ela. – Eu não sei de quem é a culpa. Mas achei que deveria dizer um adeus apropriado. Principalmente àqueles que me fizeram tão mal por tanto tempo.
Bruna ficou visivelmente desconfortável. Olhava para qualquer lugar, menos pra mim.
- Não escreveu nenhuma carta de despedida, escreveu? Tipo, dizendo nossos nomes e tal?
Levantei somente os olhos para encará-la. Ela ainda não olhava para mim.
- Nada vai levar a vocês. Eu realmente só queria dizer adeus.
Bruna bufou e finalmente me encarou.
- E o que você quer? Um abraço? Um aperto de mão?
- Você me abraçaria?
Ela mordeu os lábios e desviou o olhar. Fiquei admirada em notar que Bruna era realmente muito bonita. Ela olhou para mim com os olhos mareados.
- Você mudaria de ideia se eu pedisse? Quer dizer... eu não quero que você se mate, sabe?
- Não há mais coo mudar de ideia. Não posso voltar atrás.
Ela se aproximou de mim devagar e olhou para cima, para me ver.
- Olha. Eu sei que o que fizemos é ruim, mas... suicídio, Grace? Achei que você era mais forte que isso.
Abri os braços como se fosse abraça-la e esperei. E incrivelmente ela me deu um abraço.
- Não faça isso. Por favor. Me desculpe.
- Não posso.
Eu a soltei e quando ela virou de costas para enxugar as lágrimas, eu a ataquei. Puxei um pedaço pequeno de madeira que trouxera comigo e a acertei na nuca. Bruna caiu esparramada no chão. A cabeça sangrando.
- Não posso parar o que já comecei. E eu não sinto muito por isso.


*****

Quando Bruna acordou, eu a havia amarrado em uma das cadeiras da cozinha. No meio do quarto dela.
- Você tem um quarto muito bonito. Me pergunto pra quantos você já abriu as penas nessa sua cama.
Eu estava sentada na cama dela, segurando uma faca na mão, daquelas dobráveis, e olhava para ela diante de mim. O sangue secara em seus ombros e cabelos. E ela me olhava apavorada. Não a havia amordaçado. Ela fez menção de querer gritar e imediatamente passei a faca em sua bochecha abrindo um corto muito profundo da orelha até a boca.
- Se gritar, a próxima coisa que eu vou cortar é sua língua.
O sangue do corte manchara todo o rosto de Bruna e pingava em suas pernas nuas, já que o short que usava era muito curto. Eu sorri e deixei que meus dentes tortos aparecessem.
- Achou mesmo que eu me mataria sem “me despedir”? Ou melhor. Acredita mesmo que eu vou dar fim na minha vida? – Bruna começou a chorar e as lágrimas se misturaram ao sangue. – Eu já estou morta, querida. Vocês me mataram. TODOS VOCÊS! – gritei na cara dela.
                Bruna tremia e chorava compulsivamente. Notei que ela fizera xixi nas calças. Era minha vez de rir.
                - Xixi nas calças, Bruna? Achei que você era mais forte que isso.
                - Você é louca! Por que está fazendo isso comigo, hein? POR QUÊ?!
                Olhei para ela como se não tivesse entendido a pergunta. Então apontei para o espelho no canto do quarto. O espelho refletia nós duas. Eu, grande e gorda, com os olhos de cores diferentes, o cabelo emaranhado, as espinhas e os dentes tortos. E ela, magra e perfeita, cabelo maravilhoso, dentes perfeitos... tudo manchado de sangue.
- Por que você é linda. Porque você é magra. Porque você tem muito amigos. – Desviei os olhos do espelho e olhei para ela. – E você, Bruna? Por que você me odeia? Por que você fez isso comigo?
Ela se calou e deixou que as lágrimas falassem por ela.
- É porque eu sou gorda? Ou talvez porque eu seja feia? Ah! EU talvez, porque sejamos diferentes! É ISSO! – eu gargalhei. – Nós somos diferentes! Somos opostas! É por isso que você me odeia, não é?! HEIN?
Mais silêncio. E então, enquanto eu andava de um lado para o outro do quarto ela resolveu falar.
- Me desculpe. Por favor. Eu não sabia... por favor.
Eu parei de andar e cheguei bem perto dela.
- Me desculpe. Eu também não sabia. Não sabia que ser diferente era crime.
Enfiei a faca na barriga dela o mais fundo que a lâmina permitiu. Senti o sangue quente escorrer pelas minhas mãos e o bafo quente com fedor de sangue de Bruna no meu rosto.
- Você vai aprender agora. Não se preocupe.
Apertei mais fundo a faca e fiquei olhando Bruna nos olhos enquanto a luz os deixava. Quando ela finalmente morreu, limpei minha faca e a guardei na mochila. Olhei para o meu mais recente trabalho e, incrivelmente, não senti nada. Pena, ódio, medo, nada.
Coloquei a mochila nos ombros, fui ao banheiro e lavei as mãos. Minhas roupas não haviam se sujado, então não as troquei. Mas tinha uma muda de roupas na mochila. Afinal, eu ainda tinha alguns adeus para dar. E Bruna foi só a primeira.

domingo, 30 de agosto de 2015

Dançando com cadáveres

Boa noite, pessoas! Olha quem voltou com mais um conto...
Depois de terminar de escrever este conto, eu achei que tinha algumas coisas meio pesadas e deu uma reformulada bem pequena. O resultado é o que vocês lerão abaixo. Espero que gostem desse meu conto de retorno! aeHOOOOOOOOOOO


Boa leitura!


O cheiro, a textura e o sabor do sangue humano são coisas maravilhosas... vocês não concordam?





Respirei o mais fundo que pude. Tudo o que eu mais queria era absorver aquele cheiro. Torná-lo parte de mim. Ah, que delícia! O cheiro de sangue é maravilhoso. Se eu pudesse, o usaria como perfume, mas provavelmente seria pego por aqueles caras, sabe? Os policiais... há! Não que eu tenha algo contra o trabalho deles... concordo que algumas pessoas não mereçam circular por aí. Mas eu?! Eu sou diferente deles! Desses vermes que merecem aquele lugar sujo chamado de prisão! Eu sou um mago! Magnânimo! Sou um artista! Um DEUS! Intocável...
Minhas mãos estavam lambuzadas com esse maravilhoso líquido, o sangue. Passei as mãos pelo rosto, fechei os olhos e respirei mais fundo, sentindo aquele aroma. Minhas roupas estavam ensopadas, assim como meus sapatos e o chão em que pisava. Passei minha língua pela palma de minhas mãos. Ah! Que sabor delicioso! Sinto arrepios de excitação! Me tremo todo e antes que possa segurar, acidentei minhas calças. Uma pena. Depois desse momento maravilhoso tudo vai embora em um jorro. Suspiro e olho para o meu mais recente trabalho. Ele era um homem... pelo menos, antes de eu torna-lo um amontoado de carne. Um sorriso ilumina meu rosto e começo a rir me lembrando de cada momento que tive com minha presa.
Tenho que ser cuidadoso, sabe? Não quero ser pego. Pesquiso cada presa por pelo menos um mês. Se for necessário, gasto um pouco mais de tempo. Vale cada minuto da diversão esperar tanto. Torna as coisas mais interessantes quando o momento chega. A excitação percorre cada centímetro do meu corpo como um raio, eu me sinto eufórico.
Não pense que eu sou doente. Eu não sou! Só sinto um apresso maior por essa arte de dissecar, explorar cada pedaço do corpo humano, me deliciar com o terror e as lágrimas de minhas presas, e, principalmente, apreciar o sangue. O cheiro, a textura, o sabor! TUDO!
Eu segui essa presa em particular por quase dois meses. Não foi a presa mais difícil de conseguir, mas o tempo que perdi valeu a pena! Ele era um professor de colégio. Do primário. Onde já se viu isso? Ele era meio magrelo e muito jovem, usava óculos de armação redonda e as lentes eram enormes! Demorei, pois foi difícil de acha-lo sozinho. Estava sempre acompanhado das mães dos alunos, ou de outros professores. As vezes com a irmã ou namorada. Nunca sozinho. Irritante. Mas aquela noite que passei com ele...
Finalmente o peguei sozinho em casa. Os pais foram viajar e a irmã saíra com o namorado. Provavelmente não voltaria para casa e ele sabia disso. Entrar na casa foi fácil. Arrombar janelas e portas se tornou minha especialidade. Ele nem me ouviu entrar e me esgueirar por trás dele. Estava distraído no computador jogando algum jogo idiota online. Torci para que não estivesse falando com amigos, mas graças aos céus, estava só. Dominá-lo também foi fácil. Eu sou um homem grande e musculoso, sei pelo menos três artes marciais diferentes. E cá entre nós, o moleque era ridiculamente fraco, magro e pequeno comparado a mim. São as presas que eu mais gosto. Não por serem fáceis de subjugar, mas porque choram e imploram com mais vontade e isso me excita.
O levei para meu local favorito. Tenho umas cinco casas espalhadas de forma estratégica com aparência de abandonadas, mas muito bem protegidas e afastadas. Eu o larguei bem no meio do meu salão totalmente preparado para minha diversão. Obviamente sem janelas. Tinha uma cama de ferro, daquelas que você vê em casas de necrotério, totalmente equipada com tiras de couro e correntes para prender minhas presas. Tinha mais correntes pendendo do teto e algumas no chão perto de postes que sustentavam a casa. Havia um único armário no local, trancado com sete cadeados de senha e mais dois à chave. Era um armário bem grande de madeira maciça e revestido com aço pelo lado de dentro. Feito sob encomenda. Dentro dele: todos os meus “brinquedos”, ou seja, meus materiais de tortura.
O garoto demorou bastante para morrer. Me diverti com ele por horas! Ele chorava cada vez mais e implorava. Até eu arrancar-lhe a língua e come-la bem na sua frente. Depois disso ele entrou em choque, daí precisei finalizá-lo. Depois de picotá-lo todo, comer o que me interessava, afinal, estava morrendo de fome, e guardar meus brinquedos, estava na hora de me livrar do resto. Não gosto de ficar guardando carne. Estraga rápido demais e me pegar fica mais fácil. Além do mais, eu prefiro o sangue.
Diluí tudo em ácido e joguei na foça da casa. Claro, a foça foi toda modificada por mim para evitar cheiro, corrosão e quaisquer outros problemas que venham a ocorrer. Como já disse antes, sou muito cuidadoso.

*****

- Querido, acorde, vai se atrasar para o trabalho.
Minha esposa me acordou pela manhã com toda a calma do mundo. Ela não sabe das minhas diversões. Apenas acha que eu tenho um “trabalho” extra para fazer e não faz perguntas quando digo que tenho e ficar fora por uma noite ou duas. Ela é um amor, mas é muito burra. Escolhi muito bem.
Tomei café da manhã com meus queridos filhos, beijei minha esposa na testa com um largo sorriso amoroso e fui trabalhar. A justiça precisava de mim. E a justiça nunca espera. Afinal, eu sou um justiceiro também, não é? Sou um promotor reconhecido e admirado. É bom que ninguém descubra das minhas diversões secretas, sabe? Afinal... não quero ser pego...

domingo, 5 de abril de 2015

Purgatório - Sua última chance / Capítulo 1 - Parte 2

Ufa! Foi por pouco, mas consegui acabar a tempo! =D

Não viu a parte 1? - Purgatório - Sua última chance / Capítulo 1 - Parte 1






        Gustavo se sentou ao lado de Andressa, que estava começando a se acalmar nos braços de Giovanna. João foi se sentar em um canto da sala, no chão, ladeado por Davi e Lucas. Bia ficara imóvel no sofá e a mulher que não dissera seu nome manteve sua posição em silêncio atrás do sofá. Matheus e Dinha saíram pela porta da frente para checar o quintal. Raphael foi com Pedro olhar a cozinha. Carolina, Isabella e Sasha foram vasculhar o quarto feminino. Cauê foi com Fábio para o quarto masculino. O homem negro de roupa social se retirou para outro canto do sofá e ficou em silêncio. Marcela ficou andando de um lado para outro na sala com cara de pouco amigos, mas era visível que estava assustada.
            Pedro e Raphael voltaram logo.
            - Tem muita comida na cozinha. – disse Pedro. – E bebida também. Tipo água, suco e refrigerante. Nada alcoólico.
            - A cozinha também é bem equipada. Tem coisa lá que eu nem sei como usar.
            - Seja lá qual for o motivo de nos trazerem aqui, querem que fiquemos. E ainda nos deu condições pra isso.
            - Estamos sendo vigiados. – disse a moça sem nome. – Olhem pra cima.
            Os homens começaram a observar o teto e perceberam câmeras os vigiando. Devido ao nervoso, nenhum deles tinha reparado antes.
            - Você já tinha visto isso antes, ou foi só agora, mulher? – perguntou Raphael um pouco ríspido.
            - Não sou mulher, sou Gabriela. E não. Só reparei agora.
            Carolina e as outras duas chegaram logo depois. Sasha trazia uma caixa nas mãos.
            - Achamos no armário do quarto. É um kit bem completo de primeiros socorros. Tem de tudo aqui.
            Gustavo tomou a caixa das mãos de Sasha com cuidado e tornou a se sentar para examinar o conteúdo.
            - Vocês viram alguma câmera no quarto, moças? – perguntou Pedro.
            - Sim. – respondeu Carolina – Pelo menos quatro delas. Abrangem qualquer ponto cego. Estamos sendo muito bem observados.
            - Tem câmeras e uma caixa de primeiros socorros no quarto masculino também. – Cauê disse enquanto voltava para a sala com Fábio. – Tem também muitas roupas de cama, toalhas e materiais de higiene. É tudo tão estranho. Isso não se parece com um cativeiro.
            - Se é que estamos em um. – rebateu Giovanna.
            - Mas porque alguém iria querer nos sequestrar? – perguntou Bia. – O que nós fizemos?
            - Será que querem dinheiro? – sugeriu Cauê. – Por que se for, eu tô ferrado. Não tenho muito.
            - O que você faz pra viver? – perguntou Marcela timidamente.
            - Sou cozinheiro. Trabalho demais e não ganho tanto quanto gostaria.
            - Eu sou só uma estudante. – chorou Andressa. – Minha família não tem muita coisa.
            - Calma, querida, vai ficar tudo bem. – Giovanna ainda abraçava a menina e tentava acalmá-la.
            - Cadê os outros dois? – Perguntou Raphael. – O gordinho e a menina?
            - Aqui. – disse Fernanda. Ela e Matheus estavam voltando. – O quintal é bem grande, tinha muita coisa pra ver. Os muros são enormes e lisos, impossível de escalar. Tem uma porta lá fora que dá pra outro quarto, mas ela tá trancada. E tem mais uma que provavelmente dá pra fora, mas logicamente, também tá trancada.
            - E te uma coisa muito estranha lá fora. – Matheus e Fernanda se entreolharam antes de Matheus continuar. – Têm umas vinte cadeiras lá fora, cercadas por uma cerca elétrica. Dez de cada lado, viradas uma de frente pra outra. A gente tentou descobrir o que era, mas nem ideia.
            - Tem uns fios saindo dessas cadeiras também. Não dá pra saber pra onde vão porque passam por baixo da grama artificial lá de fora. – concluiu Fernanda.
            - Okay... isso é beeeeem estranho. – disse Cauê. – O que faremos?
            - Acho melhor esperarmos. – disse Gustavo. – Não dá pra sair. Não temos como saber onde estamos. Pelo menos ninguém está preso ou muito ferido. Temos comida e remédios. Vamos usar o que temos aqui.
            - Me recuso a comer qualquer coisa desse lugar. – respondeu o negro de roupa social.
            - Então fique com fome. – retrucou Cauê, nitidamente sem paciência. – Vou me fazer útil e preparar algo pra comermos. Temos um médico e eu sou cozinheiro. Alguém mais com alguma habilidade que possamos usar? Qualquer coisa?
            - Se alguém precisar de um corte de cabelo. Podem contar comigo. – Brincou Sasha.
            Cauê deu um sorriso simpático para a moça.
            - Ótimo, já sem quem chamar quando precisar aparar as pontas. Obrigado Sasha. – O sorriso ela legitimamente bondoso.
           
            Enquanto Cauê preparava o jantar com a ajuda de Sasha, Pedro e Ágata. Os demais continuaram na sala.
Gustavo deu uma pequena passada na cozinha para trazer água com açúcar para Andressa que estava tremendo de nervoso. João conseguiu de desvencilhar de Lucas e Davi e foi se sentar perto do homem sem nome. Fernanda e Matheus se tornaram amigos rapidamente. Marcela ficara ao lado de Bia e ambas conversavam baixinho. Fábio escolhera a solidão de um canto atrás do sofá e permanecia em silêncio. Gabriela sentou-se no sofá, mas continuou sem conversar com ninguém. Carolina e Isabella trocavam palavras rapidamente afastadas dos demais. Ambas nitidamente nervosas.
- Então seu nome é Rodrigo. – dizia João baixinho perto do novo aliado.
- Isso. E não estou gostando nada da atmosfera desse lugar maldito. Estão fazendo coisas absurdas aqui. Onde já se viu? Comer comida que não se sabe de onde vem.
- Concordo com você, parceiro, mas precisamos comer. Eu tô morrendo de fome.
- Também estou com fome, mas a cima de tudo, estou com medo.
- Há! A última coisa que parece é estar com medo.
- Não preciso me descabelar como aquela pirralha inútil pra mostrar que estou assustado. Quem não estaria?
- Concordo com você. De onde você é?
- Salvador. E você?
- Brasiléia, Acre! Conhece?
João ouviu risos vindos de trás do sofá. Não percebeu que falara o nome da cidade um pouco alto.
- Achei que o Acre não existia. – Comentou Matheus o mais baixo que pode, mas João escutou.
Apesar de gordo, o homem tinha alguma agilidade. Ele saltou por cima do sofá e desferiu um soco no rosto do garoto. Matheus foi jogado para trás e caiu de costas no chão. Fernanda se abaixou ao lado dele depois de gritar. Lucas e Davi seguraram João prontamente. O rosto de Matheus começou a inchar e ficar roxo do lado direito.
- Seu pirralhinho ridículo! Acha que isso é hora pra piada de mau gosto? Seu bostinha!
- Precisamos nos acalmar, cara! – dizia Lucas tentando conter o homem duas vezes o seu tamanho. – Ele só tá tentando se distrair, para com isso!
- É! Não precisa se irritar por qualquer bobagem, porra! Eu sou do sul e nem por isso eu vou ficar irritado com piadas bobas, vai!
- Cala a boca, seu ruivinho magrelo!
João se livrou facilmente dos dois rapazes e voltou a se sentar no sofá assim que viu Cauê vindo da cozinha.
- Qual o motivo da briga agora?
- Deixa pra lá, Cauê. – disse Gustavo. – Brincadeira de criança. Venha cá, moleque! Deixa eu ver seu rosto.
Cauê voltou para a cozinha e Gustavo foi tratar do rosto de Matheus que ficara bem feio.
- Vai ficar com o olho roxo.
- Eu já tô com o olho roxo, seu Gustavo.
- Então, aconselho a fechar a matraca.
Matheus baixou a cabeça. – Desculpe.
- Está pronto. Venham comer. – gritou Raphael da cozinha.

Todos que estavam na casa se sentaram à mesa, os únicos que se recusaram a comer foram Rodrigo, Gabriela e Andressa. A menina se sentou ao lado de Giovanna e permaneceu com a cabeça baixa. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar.
- Alguém sabe que horas são? – Perguntou Davi.
- Não deve ser muito tarde. – disse Gustavo. O vento tá um pouco frio, mas ainda não como ficaria de madrugada. Só supondo, claro.
- Isso aqui tá muito bom! – disse Marcela. – Você cozinha muito bem, Cauê.
Os dois haviam se sentado lado a lado. Cauê deu um sorriso um pouco tímido.
- Obrigado. Mas eu tive ajuda dos outros. Ágata, por sinal, fez boa parte disso aqui.
A mulher gorda, que estava sentada de frente para Marcela deu um sorriso carinhoso para a menina. Aos poucos, os habitantes da casa foram relaxando um pouco e conversas mais amenas surgiram. Coisas como: de onde você é? O que você faz? Por quase duas horas, eles se sentiram tranquilos. Andressa foi se acalmando e arriscou comer alguma coisa. Gabriela não parava de encarar as câmeras. Rodrigo e João trocavam palavras em um sussurro. Fábio permanecia calado.
O jantar acabou, a louça foi lavada e guardada. Tudo feito de modo automático, como se quisessem ter o que fazer apenas para aliviar o estresse.
- Acho que eu vou me deitar. – disse Gabriela, pela primeira vez.
Todos se viraram para ela incrédulos.
- Tem certeza que vai sozinha? – perguntou Giovanna.
- E o que quer que eu faça? Vocês acabaram de comer a comida desse lugar estranho. Que diferença faz eu ir dormir? Minha cabeça parece que vai explodir!
- Não acho uma boa ideia você ir sozinha. – respondeu Gustavo. – Apenas isso.
- Bom, alguém quer ir dormir comigo? – Gabriela disse rispidamente.
Nesse momento, todas as luzes se apagaram. Andressa começou a gritar e se agarrou a Giovanna. Matheus colocou as mãos sobre a cabeça e se abaixou. Fernanda tentou acalmá-lo, mas o garoto estava uma pilha de nervos e com o rosto destruído. Enquanto o medo se instaurava nos habitantes, a TV ligou sozinha e um ser apareceu nela. Alguém, vestido com uma máscara de caveira e um capuz negro, em um fundo escuro. O silêncio desabou sobre a casa. Todos se viraram apavorados para a figura na tela e esperaram.
- Boa noite. Eu sou Caronte. E vocês estão no Purgatório.


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domingo, 22 de março de 2015

Purgatório - Sua última chance / Capítulo 1 - Parte 1

Um salve a todos! (Quem?) Voltei! Hoje eu trago um projeto que eu comecei e acho que vai durar muito... bom, vamos ver. Espero que gostem. Não vou ficar de lenga lenga hoje não. Boa leitura ;)


O que você faria se acordasse em uma casa com tudo necessário para sua sobrevivência? Você não pode sair de lá. E está acompanhado de pessoas que nunca viu na vida. Essa é a situação de nossos vinte protagonistas. Esses "heróis" terão de se virar lá dentro...

O que aconteceria se o BBB fosse como os jogos mortais? *sorriso maligno*






          Uma buzina soou alto no silêncio. Como um alarme, gritou de forma desesperada ressoando pelo ambiente bem iluminado da mansão. Era realmente um lugar enorme. Estava escuro lá fora. O céu negro, coberto de estrelas. O quintal iluminado de forma artificial por enormes holofotes. Um muro de pelo menos dez metros cercava o terreno da mansão. O quintal era bem cuidado, com grama aparada e vários lugares com bancos, redes largas e sofás para se sentar. Uma piscina grande ficava em um local estratégico do quintal, diante da porta de saída. Todas as luzes estavam acesas, iluminando o interior da casa. A cozinha e a sala de estar eram facilmente vistas pela porta gigante de vidro da casa. O ambiente era aconchegante e reconfortante. A buzina continuava a soar. Como em um presídio. Com pressa e vontade. Soava alto e irritante.
            Em um quarto da casa, deitado na cama, um homem abriu os olhos. Ele se sentiu confuso e as luzes incomodavam seus olhos. Cobriu-os com o braço e sentiu sua cabeça latejar de dor. Gemeu e tentou olhar em volta mais uma vez. Estava em um quarto muito grande, bem decorado em tons de azul, verde e cinza. Havia cinco camas de cada lado do quarto, os pés virados uns para os outros. Em uma das paredes do quarto se localizava um grande armário de madeira branca. No lado oposto, uma porta de madeira de correr, também branca, estava fechada.
            O homem tentou se sentar e sentiu certa dificuldade. Notou com espanto e um pouco de medo crescente, que outras pessoas estavam deitadas nas camas. Todos homens, de diferentes idades, sentavam-se, um a um, tão confusos quanto ele. Ele franziu a testa enquanto observava seus companheiros de quarto.
            - O que está acontecendo? – dizia um deles, um jovem garoto gordo de cabelos pretos.
            - Onde diabos nós estamos? – disse outro que estava ao lado do primeiro a acordar, um rapaz negro de cabeça raspada.
            A buzina foi morrendo aos poucos. Seus gritos transformados em um sussurro, um suspiro e por fim, silêncio.
            - É melhor sairmos e ver o que está acontecendo aqui. – Um homem aparentemente mais maduro que os demais, usando calças brancas e camisa social se levantou e foi andando em direção à porta. – Mais alguém vem comigo?
            - Eu vou com você. – Disse o primeiro.
            O homem de calças brancas abriu a porta devagar e se deparou em um corredor largo e muito iluminado, de frente para outra porta branca. Para o lado esquerdo, o corredor dava em uma porta menor, também branca, e para o direito, ia para um cômodo aberto.
            Os dez homens se amontoaram na porta com medo de sair. Então a porta diante deles abriu timidamente e uma mulher apareceu ali. Uma moça negra, de cabelos curtos em um black power contido e arrumado, com um olhar sério. Atrás dela, outras nove mulheres se amontoavam e observavam aterrorizadas.
            O primeiro homem notou que o quarto de onde elas saíram era arrumado igual ao deles, porém em tons de rosa, lilás e branco. A mulher negra olhou para o homem de calças brancas com um olhar autoritário e inquisitivo. Ao falar, sua voz tinha um tom de liderança.
            - O que está acontecendo aqui?
            - Sabemos tanto quanto a senhorita. – Respondeu educadamente o homem. – Sugiro que olhemos em volta primeiro.
            E sem esperar resposta, ele saiu para o corredor e seguiu pelo lado direito. O restante dos homens o seguiu, e timidamente as mulheres fizeram o mesmo. Viram-se todos em uma sala de estar imensa. Dois sofás estavam colocados em “U” no meio da sala, diante de uma TV de plasma de umas cinquenta polegadas. A sala era bem decorada com pinturas calmas, um espelho e um tapete confortável. Atrás do sofá, uma abertura grande dava para uma cozinha bem equipada, bonita e organizada. A mesa tinha espaço suficiente para todos os vinte.
            - Acha que é seguro? – perguntou a moça negra.
            - A casa parece convidativa. Mas como chegamos aqui? Alguém se lembra?
            Ninguém respondeu. Alguns balançaram a cabeça negativamente.
            - Acordei com muita dor de cabeça. – disse o rapaz que havia levantado primeiro. – Mais alguém acordou assim?
            - Eu senti muito enjoo e uma tonteira. – respondeu uma garota. A mais jovem delas, loira de olhos azuis. – Mas não senti dor de cabeça.
            - Será que doparam a gente? – disse o garoto gordo.
            Alguns começaram a ficar agitados e olhar uns para os outros. O homem de calças brancas soltou um suspiro.
            - Acalmem-se, por favor. Entrar em pânico não vai nos ajudar. Meu nome é Gustavo, eu sou médico. Eu não sei o que posso fazer sem meus equipamentos, mas se precisarem, estou aqui para ajudar. Por hora, vamos nos acalmar e tentar descobrir o que está acontecendo aqui, e sem pânico. – Muitas cabeças acenaram em resposta a ele. – Ótimo. Primeiro, vamos ver o que nosso amigo aqui sugeriu. Se fomos mesmo dopados.
            - Você pode descobrir isso? – perguntou a moça negra ao lado dele.
            - Eu não sei. Vou descobrir examinando cada um de vocês. Procurar por pupilas dilatadas, falta de reflexo, ou mesmo ferimentos na cabeça, como no caso do rapaz ali que disse ter acordado com dor.
            A moça assentiu para ele.
            - A propósito, me chamo Carolina.
            - Bom, Carolina, você pode ser a primeira então. Para dar confiança aos outros.
            Ela assentiu e foi sentar-se no sofá. Os outros foram decidindo aos poucos o que fariam. Alguns também se sentaram, outros preferiram ficar de pé. Gustavo se aproximou de Carolina e começou a olhar seus olhos e fazer testes de reflexo. Ela parecia bem, mas seus reflexos estavam um pouco lentos.
            - Não sei o que usaram, mas você com certeza tomou alguma coisa. – Carolina pareceu desconfortável. – Se lembra de alguma coisa?
            - Não muito. A última coisa que me lembro foi de estar trabalhando. Não lembro nem de ter tomado algo.
            Uma das garotas começou a chorar baixinho. Uma mocinha de cabelos longos castanhos e bem cacheados. Ela também parecia muito nova.
            - Eu só quero ir pra casa. – disse ela quase em um sussurro.
            A mulher ao lado dela passou o braço sobre seus ombros e tentou acalmá-la. Uma mulher de camisa xadrez verde, de rosto maduro e cabelos negros presos de forma desajeitada.
            - Todos nós queremos, querida.
            Gustavo foi até ela e se abaixou. – Deixe-me olhar pra você. Como se chama?
            - Andressa.
            - Vai ficar tudo bem, Andressa. Eu não posso prometer nada, mas vou fazer o que puder pra ajudar.
            - E quem é você pra dizer uma coisa dessas? – um dos homens o olhava muito feio. Era um cara baixo e gordo, de olhos pequenos como de um porco. – Você está aqui dentro como todos nós! Não fale como se pudesse nos salvar, ou coisa parecida.
            - Ei! Cala a boca, babaca! – começou o a dizer o negro de cabeça raspada. – Ele tá tentando ajudar! Pelo menos ele é um médico. Você é o que? Pescador? Vai ajudar como? Pegando uns baiacu na porra da piscina?
            - E quem você pensa que é pra me chamar de babaca? Seu macaco!
            - Vai se foder, mermão!
            De repente os dois homens começaram a se agredir. O homem gordo estava levando a pior diante do outro, que era bem mais alto e forte que ele.
            - Parem com isso! Estão assustando todo mundo! – começou a gritar o primeiro a acordar.
            Outro homem, também alto e forte como o careca, se meteu no meio da briga tentando separar os dois, mas o negão queria muito arrebentar alguém. O homem forte segurou o gordo pra um lado, enquanto outro cara se colocava na frente do negão e tentava leva-lo para trás. A essa altura, Andressa começara a chorar compulsivamente. E outras duas garotas davam sinais de que iam se abaixar e pedir clemência. Outros dois homens foram necessários para acalmar os ânimos dos briguentos enquanto Gustavo fazia seu trabalho.
            - Se essa baleia abrir a boca mais uma vez pra me xingar, eu juro que arranco os dentes dele um por um!
            - Segura a onda, caralho! Não tá vendo a situação, não? – disse um rapaz, que foi segurar o negão para ajudar o primeiro.
            - Nem todos aqui foram dopados. – disse Gustavo, o que chamou a atenção dos seis homens envolvidos na briga. – Alguns foram atingidos na cabeça.
            Gustavo apontou para a cabeça da moça de cabelos negros que amparava Andressa e depois para um homem que parecia mais um hippie parado atrás do sofá.
            - Acho que eu fui uma dessas pessoas, então. – disse o primeiro a acordar, colocando a mão na cabeça.
            Gustavo foi até ele e começou a examinar a cabeça do rapaz.
            - Como se chama?
            - Cauê.
            - Você tem um galo e tanto aqui do lado direito. Lembra-se de alguma coisa?
            - Nada. Nem de onde eu estava.
            - Isso não é bom.
            - E você, doutor? – perguntou o hippie em um sussurro acusativo. – Você pode nos examinar, mas quem vai dizer o que houve com você?
            - Provavelmente, eu fui dopado também. Lembro-me de ter virado a noite no hospital, mas também perdi minha memória do que houve depois. Acordei enjoado. Nesse caso, você vai ter de confiar em mim.
            O hippie assentiu uma vez com a cabeça.
            - Pera, eu sei quem é você! – disse um rapaz novo, que ajudou a segurar o gordo brigão. – Você é Fábio Carvalho! O escritor!
            O Fábio deu um sorriso meio torto para o garoto. – Você é um fã?
            - Na verdade, tenho uma amiga que é. Meu nome é Lucas.
            - Fico feliz de saber que tenho ao menos um fã. – a voz de Fábio era baixa e rouca. E olhando de perto, podiam se ver olheiras sob os óculos de aro redondo. Ele parecia muito mais velho do que era.
            - Não acho que seja hora pra isso. – disse Carolina, retomando sua voz autoritária. – Precisamos saber onde estamos.
            - E o que você sugere? – perguntou o gordo briguento de forma rude.
            - Eu sugiro que você cale a porra da boca, seu índio ridículo! – respondeu o negão careca.
            O homem alto a lado dele lhe deu um tapa no braço e Cauê tratou de segurar o gordo.
            - E eu sugiro que vocês parem de se tratar de forma tão pejorativa. – Cuspiu Cauê. Virou-se para o gordo e perguntou: - Como se chama?
            - Sou João.
            - E você, careca?
            - Raphael. – respondeu de má vontade.
            - Ótimo. Que tal praticarem chamar um ao outro pelo nome, hã?
            - Não é só o escritor que é alguém conhecido aqui. – disse a menina loira de olhos azuis. – Eu sou Marcela. Mas não é a mim que me refiro. Você! – disse ela acenando a cabeça para o garoto gordinho e apavorado em um canto da sala. – Matheus Fontes do canal Theustes. É um Youtuber, né?
            Todos olharam para ele automaticamente.
            - Quê? Eu? Err... é... eu... sou sim. – disse ele meio assustado.
            - O que é Youtuber? – perguntou a moça ao lado de Andressa.
            - Alguém que faz vídeos pro YouTube. – respondeu a moça ao lado dela. Uma jovem parda, de cabelos longos, pretos e enrolados. – Eu conheço seu canal. Você fala sobre games.
            - Eu não sabia que meninas me assistiam. – respondeu Matheus com timidez.
            - Não assisto, meu irmão assiste. – respondeu a moça.
            - Meu namorado assiste. E é um saco. – disse Marcela com rispidez.
            - Ahn... ok. – Agora Matheus tentava virar o rosto pra qualquer direção que não fosse a direção das meninas.
            Uma garota bem baixinha, com cara de criança pousou a mão no braço do jovem.
            - Não ligue pra elas. Eu assisto seu canal e acho muito legal. Eu sou a Fernanda, mas pode me chamar de Dinha.
            Matheus deu um breve sorriso tímido e agradeceu.
            - Essa conversa não vai nos levar muito longe. Eu vou olhar em volta. – uma mulher ruiva de corpo preparado e vestindo roupas de ginástica se levantou do sofá. – Não quero ficar sentada aqui sem saber onde estamos e por que estamos aqui. Vou olhar tudo que puder ao redor da casa. Meu nome é Isabella. Alguém quer me acompanhar?
            - Eu vou. – uma moça muito gorda, que estava parada atrás do sofá em silêncio se mexeu e foi para o lado de Isabella. – Também não quero ficar aqui parada. Sou Ágata. Prazer.
            - Não vou deixar duas mulheres olharem tudo sozinhas. Eu também vou checar a casa. Sou Pedro. – disse o homem que ajudara a segurar Raphael momentos antes. – E você machão? – disse olhando para Raphael. – Vai junto, né?
            - Vou. Mas só pra ficar longe daquele cara. – disse apontando para João.
            - Eu fico aqui. – respondeu o homem que estava entre João e Lucas, ele havia ajudado a apartar a briga. – Vou ficar de olho nesse cara. – acenou a cabeça para João. – Meu nome é Davi.
            - Eu vou ficar pra te ajudar, cara. – Respondeu Lucas.
            - Eu iria, mas Andressa ainda parece muito nervosa. Vou ficar aqui com ela. – Andressa havia se agarrado a moça com força. – Meu nome é Giovanna.
            - Eu estou com muito medo. Também vou ficar. – respondeu baixinho a moça ao lado de Giovanna. – Sou Beatriz. Bia está bom.
            Carolina se levantou. – Também vou. – ela olhou para as pessoas que ainda não haviam se pronunciado. Duas mulheres e um homem. – Vocês duas vão fazer o que?
            Uma delas era uma moça bem vestida, bronzeada e de cabelos curtos e aparentemente muito assustada. Ela simplesmente encarou o chão sem dizer nada. A outra era um pouco mais jovem e vestida de forma mais largada. Ela encarou Carolina nos olhos.
            - Eu vou... – disse bem baixinho. Lógico que estou apavorada, mas... acho que vai ser pior se eu ficar aqui. Me chamo Sasha.
            - Isso é tudo perda de tempo.
            Cabeças se voltaram para o único homem que não havia falado ainda. Era um homem negro, de cabelos rentes à cabeça, lábios grossos e cara de poucos amigos. Vestia uma calça e camisa sociais. Ele olhava para todos de forma acusadora e com certo nojo.
            - Sair correndo por ai não vai resolver nada. A máxima conclusão que chegaremos é que estamos em uma casa. Grande coisa.
            - Não temos alternativa. – respondeu Gustavo. – Se você quiser, pode ficar sentado aqui com todos os outros e esperar o Jesus vir te salvar. – o homem olhou para Gustavo com ódio. – Eu vou ficar aqui para o caso de alguém se machucar. E gostaria que um dos que vão vasculhar a casa que procurem algum kit de primeiros socorros. E que alguém veja se tem comida na cozinha, ou água de preferencia. Não sabemos quando foi a última vez que um de nós comeu ou bebeu alguma coisa.
            - Estou dizendo que isso tudo é bobagem. Andar por ai pode ser perigoso. E se a casa tiver armadilhas?
            - Então saberemos se alguém cair nela. – respondeu-lhe Gustavo.
           



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